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Guerras de Drones Já são o Presente e o Futuro dos Conflitos Armados

O uso de tecnologia nos conflitos militares vem se aprimorando cada dia mais, e isso inclui os drones.

Drones são veículos aéreos não tripulados (VANT) ou aeronave remotamente pilotada (ARP), que não necessitam de pilotos nas aeronaves para controlá-las. Normalmente são controlados à distância, por meios eletrônicos com supervisão humana, ou por meio de controladores de rota programáveis. A utilização de drones no meio militar possui diversas funções, como reconhecimento de áreas ou alvos, vigilância e ataques. 

Desde 2015, diversas nações investem mais na sua frota aérea de drones (mais de 51 países fazem uso da tecnologia) e muitas possuem sistemas extremamente eficazes que impulsionam seu uso militar em massa, como o drone Bayraktar TB2 da Turquia.

Drone de reabastecimento aéreo Boeing MQ-25 / Crédito: Boeing

A história do uso de drones em conflitos armados

Os primeiros drones foram criados pelos Estados Unidos e Inglaterra durante a 1ª Guerra Mundial, sendo em 1917 o primeiro voo teste de uma aeronave com controle via rádio.

O seu funcionamento foi inspirado nas bombas aéreas alemãs (chamadas V-1), junto com o sistema de controle de rádio, formando uma aeronave sem necessidade de tripulação para seu comando.

Eles são principalmente câmeras de segurança no céu capazes de gerar imagens de alta definição em tempo real para o quartel-general. Uma vez que um alvo foi identificado, ele pode ser destruído no local pelas munições guiadas transportadas pelos drones.

Aljazeera

A Guerra do Vietnã foi o primeiro conflito onde o uso dos drones americanos esteve presente em alta quantidade, 38 anos depois do primeiro teste. A principal função dos VANTs era servir como isca de combate, reconhecimento da área de conflito, lançamento de mísseis contra alvos fixos e soltar folhetos para operações psicológicas.

Depois disso, seu uso foi difundido por outros países como tecnologias de reconhecimento, vigilância e ataque militar.

Atualmente, as fabricações e pesquisas dos sistemas de drones acontecem em vários países, alguns com o apoio dos Estados Unidos, como no caso de Israel. Porém, é possível observar que mais países estão embarcando nos investimentos de aprimoramento tecnológico de uma forma independente, já que sua eficiência em combate é alta.

O uso de drones pelo mundo na “Guerra Contra o Terror” dos Estados Unidos

A partir do ataque terrorista do 11 de Setembro, os Estados Unidos aprofundaram ainda mais o seu uso já histórico dos drones, principalmente nas suas missões na “Guerra contra o Terror”, tornando uma das principais armas militares utilizadas por suas forças armadas.

A missão tinha como alvo os grupos extremistas muçulmanos, como Al-Qaeda, Estado Islâmico e suas variações. Os países atingidos foram: Afeganistão, Paquistão, Iraque, Líbia, Síria, Iêmen, Somália e Filipinas.

Um estudo de 2021 do Watson Institute for International and Public Affairs estimou que essas guerras causaram a morte de 897.000 a 929.000 pessoas, incluindo mais de 364.000 civis, e custaram US$8 trilhões.

Existem registros que contabilizam mais de 1100 ataques por VANTs vindos dos EUA sendo cerca de 145 ataques de drones contra a Líbia, 48 no Iraque e mais de 1000 (além de 299 ataques vindos do Reino Unido) no Afeganistão.

O alto uso dos drones pelos EUA é alvo de grandes críticas sobre a ética de condução desses conflitos armados, já que os VANTs foram motivo de mortes de civis em erros dos ataques de alvo.

A utilização de drones possui a vantagem de não colocar em risco o contingente de soldados, pilotos, e equipamentos militares de alto valor do país, pois é um dispositivo remoto e com algumas funções de ataque programadas. Porém, a exatidão dos seus sistemas de identificação de alvos ainda passa por aperfeiçoamentos, e por vezes causam um dano alto para a população do país que está sob ataque.

A questão ética e moral aqui é com relação à prioridade que o país em ofensiva tem com suas próprias bases militares e a indiferença com a população atacada, quando ela é vista somente como “perda colateral.”

Essas novas tecnologias exigem uma reformulação das leis internacionais para que questões como esta não estejam abertas somente a interpretação, principalmente quando surgirem os drones totalmente autônomos dos quais falaremos mais abaixo.

A massificação do uso de drones em conflitos: o Bayraktar TB2 Turco

A eficiência e eficácia que os drones proporcionam nos conflitos armados é o que permitiu um avanço e investimento na aprimoramento das tecnologias de sistemas.

O custo que um conflito ou guerras causam para os países é um fator de consideração no planejamento. Os drones, antigamente, eram uma tecnologia privilegiada por conta do seu preço de produção e da mecânica envolvida. 

Nos dias de hoje, as bases de conhecimento técnico são maiores e possibilitam uma maior evolução dos sistemas, distribuição maior e por preços mais baratos. É o caso do VANT Bayraktar TB2 da Turquia, que vem mudando o cenário das armas militares mundial.

Drone Bayraktar TB2 da Turquia / Crédito: Wikipedia

Bayraktar TB2 Turco é um drone de média-altitude longa-duração por controle à longa distância com possibilidade de voos autônomos, guiados pelo satélite Türksat. Ele foi desenvolvido em 2014 após proibição dos EUA sobre as exportações de VANTs para a Turquia pela preocupação que eles fossem usados em ataques contra o Partido dos Trabalhadores do Curdistão.

Ele já é utilizado por vários países como Ucrânia, Qatar e Azerbaijão e com perspectivas de mais compras pela Polônia e Albânia.

“Bayraktar TB2 completou com sucesso 420.000 horas de voo e contratos de compra foram concluídos com 16 países. Além disso, o primeiro contrato de exportação do VANT de combate Bayraktar Akinci foi assinado. As entregas previstas no contrato são para 2023”, disse Haluk Bayraktar.”

Sputink News BR

Seu preço de venda é estimado em US$5 milhões a unidade, o que em comparação a outros drones é muito mais em conta, como o Predator dos EUA (drone mais famoso da história) que tinha o custo de US$40 milhões por sistema ou seu substituto Reaper que custa US$32 milhões.

O preço e a eficácia comprovada nos conflitos no Leste europeu e no Oriente Médio proporcionaram uma oportunidade mais fácil de massificação do uso de drones para diversos países. Foi a partir de 2015 que muitas nações adquiriram uma força aérea de VANTs.

O drone Bayraktar TB2 Turco vencendo guerras

Diversos países estão fechando contratos de compra do Bayraktar TB2 da Turquia para seus conflitos armados, que já possui um histórico de vitórias:

Líbia

Considerada a maior guerra de drones da história, o conflito entre o GNA (exército reconhecido pelas Nações Unidas como o governo da Líbia) e o LNA (exército nacional-líbio de Benghazi apoiado pelos Emirados Árabes e Estados Unidos) mudou quando foram usados o Bayraktar TB2.

A LNA utilizava-se de drones chineses (Wing Loong) contra armas aéreas antigas da GNA, o que lhe permitiu a vantagem por certo tempo. Até que em dezembro de 2019, o apoio turco foi declarado e os drones Bayraktar TB2 utilizados, conseguindo avançar sobre as áreas desérticas e planas com precisão e acabando com as tropas da LNA.

“[…] Menor e com uma área de alcance muito menor do que o Wing Loong, o Bayraktar ainda era capaz de atacar e destruir os alvos terrestres do LNA, assediar suas linhas de abastecimento e atacar bases aéreas avançadas que antes eram consideradas seguras. As tropas terrestres pró-governo podiam agora avançar com cobertura aérea, com as posições do inimigo conhecidas pelos seus comandantes.”

Aljazeera

Nagorno-Karabakh

O conflito de Setembro de 2020 entre o Azerbaijão e a Armênia na conquista da região de Nagorno-Karabakh foi marcado pela vitória esmagadora das forças do Azerbaijão. Utilizando o Bayraktar TB2 e drones kamikaze, houve a destruição de cerca de US$1 bilhão de equipamentos militares armênios.

O VANT turco foi utilizado para recognição de alvos e ataques das defesas inimigas, carregavam munições inteligentes e guiadas por conta própria, as câmeras de alta definição permitiram a produção de propagandas militares também. Desse modo, o Azerbaijão conseguiu estabelecer uma vigilância completa sobre as tropas armênias, além de minar seus trajetos logísticos para suprimentos ou avanços, inutilizando as bases militares.

Foi o conflito chave para os Departamentos de Defesa dos EUA repensassem a importância e eficácia dos drones, identificando suas verdadeiras vantagens em conflitos armados.

Etiópia

Após meses de avanço rebelde na região Norte da Etiópia, em Dezembro de 2021, o governo etíope declarou vitória. Com o apoio dos Emirados Árabes, Irã e Turquia, a Etiópia garantiu que sua força armada aérea por VANTs fossem utilizadas para reconhecimento das tropas inimigas na área montanhosa e de difícil acesso terrestre.

Com registro de ataques de drones que mataram 18 civis e deixaram 11 feridos, a frota aérea de Bayraktar TB2 de US$51 milhões, mudou a maré na guerra civil. O resultado poderia ser muito diferente se os países não tivessem apoiado o governo federal.

O Sr. Singer, o especialista em drones, disse que a experimentação com a guerra de drones na Etiópia e na Líbia tem paralelos com a Guerra Civil Espanhola na década de 1930, quando as potências externas usaram os combates periféricos para testar novas tecnologias militares e para avaliar a reação internacional para determinar o que poderiam fazer. “É uma combinação de guerra e laboratório de batalha”, disse ele.

The New York Times

Ucrânia

Em Outubro de 2021 o governo ucraniano divulgou vídeo de um Bayraktar TB2 destruindo as forças rebeldes apoiadas pelos russos presentes no leste do país. Foi em 2019 que o arsenal aéreo da Ucrânia adquiriu US$70 milhões em VANTs turcos, com perspectiva de iniciar uma produção interna do sistema no futuro próximo. Atualmente, grande parte da frota aérea de drones da Ucrânia é formada pelo Bayraktar TB2, o que vem permitindo uma melhor defesa contra os rebeldes com apoio Russo na região de Donbas.

Mas as tensões não deixaram de existir, já que a Turquia (membro da OTAN) e a Ucrânia estão aprofundando seu relacionamento e a Turquia já esteve em combates recentes contra as forças militares de Moscou, mas é considerada o membro da OTAN com maior relacionamento com a Rússia. Portanto as implicações do conflito não estão favorecendo os interesses do Kremlin e o fortalecimento da defesa ucraniana pode enfraquecer seu avanço na região.

O uso de drones pode permitir que a Ucrânia tenha um alívio mas ainda não é garantia de trégua ou vitória sobre a Rússia.

Os principais tipos de drone militares do mercado no mundo

Existem diversos tipos de sistemas e utilidades de VANTs que os países produzem e compram, dependendo das suas funções e necessidades.

Drones reconhecimento/inteligência:

Podendo reconhecer desde áreas de difícil acesso, até pessoas específicas, os drones de inteligência capturam imagens a partir de câmeras acopladas e enviam por transmissão ao quartel de comando para análise.

Com o controle automático, o drone pode ajustar a altura a partir de uma “pontuação de probabilidade” do sistema que o orienta a se reposicionar da melhor forma para obter seu “ponto de vantagem” de visão e análise.

Drone de vigilância e reconhecimento RQ-4 Global Hawk dos EUA / Crédito: Wikipedia

Drones armados/de ataque:

Parte do sistema dos drones pode possuir armazenamento de armas, como metralhadoras, pistolas e até mísseis e bombas de alta precisão. Em VANTs armados, um aparelho de raio infravermelho com sensores laser calibram a força da arma e até a oscilação do vento para obter a maior precisão no ataque. Além disso, as câmeras acopladas permitem transmissão ao vivo com a base de operação para acompanhamento e liberação das ofensivas. 

A facilidade de transporte e de operação é o que torna esses drones tão populares no meio militar.

Drone MQ-9 Reaper dos Estados Unidos / Crédito: Wikipedia

Drones kamikaze:

É um leve e pequeno drone, chamados também de “drones suicidas”, que carregam em si mísseis ou bombas. Seu grande objetivo é sobrevoar uma área e assim que reconhecido seu alvo, o próprio ARP é destruído junto com o armamento que carrega. Por conta de seu pequeno tamanho, possui um transporte furtivo e rápido o que facilita um ataque despercebido pelos inimigos já que não é detectado pelos radares militares.

Esse tipo de VANT foi uma exclusividade americana por muitos anos, mas vêm se massificando entre as nações por conta de seu baixo custo produtivo. 

Drones reabastecimento aéreo:

Um dos mais novos avanços dos drones é o de reabastecimento aéreo. Lançado pela Boeing e chamado MQ-25 é o primeiro VANT que automaticamente se acopla a outras aeronaves para reabastecer.

Estes drones são programados para o fornecimento de combustível em voo a aviões baseados em porta-aviões. Um drone é capaz de carregar aproximadamente oito toneladas de combustível capaz de reabastecer de quatro a seis aviões-caças. Isso permite que caças ou até mesmo os próprios ARPs possam ficar mais tempo em missão de voo, e ter reabastecimento facilitado e rápido. 

Drone de reabastecimento Boeing MQ-25 / Crédito: Wikipedia

Drones furtivos (ou “invisíveis”) lançados de porta aviões

O mecanismo furtivo já era utilizado em aviões-caça e a aeronave é capaz de refletir ou absorver ondas eletromagnéticas e driblar os sistemas de radar de reconhecimento inimigo. Os VANTs furtivos não possuem armazenamento para armas, nem um sistema muito aperfeiçoado de alvos, mas podem levar pods de sistemas eletrônicos para facilitar a obtenção secreta de inteligência e reconhecimento, podendo agir até em guerras eletrônicas.. 

Como não têm tripulação e são de custo mais baixo, são aeronaves úteis em missões perigosas de recolhimento de informações e patrulha, já que, caso o sistema de defesa antiaérea inimiga o reconheça, não terá grandes mecanismos em risco.

Drone furtivo RQ-170 dos Estados Unidos / Crédito: Wikipedia

O futuro dos conflitos com drones totalmente autônomos

Os drones, por mais que não possuam tripulação, ainda assim possuem controle humano na base de operações. Porém, a grande investida para o futuro são os VANTs 100% autônomos e controlados apenas por inteligência artificial.

Com o apoio da sua empresa SpaceX e Tesla, Elon Musk é um dos grandes especialistas sobre o desenvolvimento dessa tecnologia. O empresário teve a ousadia de dizer a um auditório cheio de oficiais da Força Aérea Americana, que o futuro dos conflitos armados no domínio aéreo será via drones autônomos e que o tempo dos pilotos de caça já passou.

O funcionamento de ARPs como esse já foi relatado pela ONU na Líbia, onde supostamente haveria matado soldados envolvidos na guerra civil. O modelo nesse caso é o Kargu-2 turco, que utiliza um sistema de visão computacional para analisar objetos ou pessoas que podem ser hostis, preparado para atacar (funciona como um drone kamikaze) quando a inteligência artificial do sistema julgam ameaças em potencial em um perímetro.

“Os sistemas de armas autônomas letais foram programados para atacar alvos sem exigir conectividade de dados entre o operador e a munição: na verdade, eles possuem uma real capacidade de encontrar e disparar, utilizando algoritmos de aprendizagem de máquina”, diz um trecho do relatório da ONU [sobre a morte dos soldados na Líbia].

CanalTech

O bilionário Elon Musk está envolvido no ativismo contra as armas de combate autônomas, junto com o movimento Stop Killer Robots (Parem os Robôs Assassinos), e traz o debate sobre a ética da inteligência artificial no campo militar. Com sistemas ainda em desenvolvimento e sem supervisão humana, o ataque automático de VANTs pode passar por erros de análise e comunicação e criar grandes desastres.

O avanço tecnológico é algo significativo para os avanços da sociedade, possibilitando uma maior facilidade de processos produtivos e causando menos danos humanos em conflitos militares, por exemplo. Porém, em questões como a de inteligência artificial substituindo processos humanos, há necessidade de reformulações nas condutas internacionais para assegurar uma igualdade e justiça a todos envolvidos em qualquer conflito e não deixar implicações abertas à interpretação.

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