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Maduro, Noriega e os Fantasmas do Panamá: Será a Venezuela o Novo Campo de Batalha?

Quando Donald Trump subiu ao púlpito da Casa Branca e chamou Nicolás Maduro de “narcoterrorista”, a sensação foi de déjà vu. Dias depois, navios de guerra dos EUA avançaram pelo Caribe em uma operação apresentada como um gigantesco esforço antidrogas. Para quem se lembra da geopolítica do fim da Guerra Fria, a cena soava familiar: Washington contra um caudilho latino-americano acusado de traficar cocaína e desafiar o poder norte-americano. Estaria Maduro prestes a se tornar o novo Manuel Noriega?

A comparação é tentadora. Três décadas atrás, Noriega governava o Panamá com mão de ferro, movimentando drogas, lavando dinheiro e, ao mesmo tempo, recebendo pagamentos da CIA. Quando caiu em desgraça, os EUA o indiciaram, o tacharam de criminoso e enviaram 30 mil soldados para a Cidade do Panamá. Em poucas semanas, Noriega estava algemado em um avião rumo a Miami.

Hoje, Maduro enfrenta uma situação semelhante: indiciado pela justiça americana, acusado de transformar a Venezuela em um polo do narcotráfico e cada vez mais isolado do Ocidente. Trump chegou a colocar um preço por sua captura — elevando a recompensa para 50 milhões de dólares. O sonho de Washington é claro: ver Maduro arrastado para fora de seu palácio e exilado, exatamente como aconteceu com Noriega.

Mas a Venezuela não é o Panamá, e 2020 não é 1989.

Guerra Estados Unidos e Venezuela

O Manual Noriega

Para Washington, Noriega era o vilão perfeito: corrupto, implacável e descartável. A invasão dos EUA ao Panamá — Operação Causa Justa — foi rápida, decisiva e vendida ao mundo como libertação. A queda de Noriega virou exemplo de como os EUA ainda podiam projetar poder em seu quintal geopolítico.

É fácil entender por que alguns em Washington gostariam de repetir o roteiro com a Venezuela. O governo Maduro foi acusado de atuar em parceria com guerrilheiros colombianos no tráfico de cocaína, ao mesmo tempo em que preside um dos maiores colapsos econômicos da história moderna. Milhões de venezuelanos fugiram, gerando uma crise de refugiados por toda a América Latina. O enredo parece perfeito: ditador, drogas e um Estado em ruínas.

Por que a Venezuela é Diferente

Mas, olhando de perto, as diferenças entre Maduro e Noriega são gritantes.

  • O Peso Global: O Panamá era pequeno, isolado e dependente do canal. A Venezuela, por outro lado, detém as maiores reservas de petróleo do mundo e conta com aliados poderosos. A Rússia fornece armas, a China banca o que resta da economia e o Irã envia combustível. Qualquer intervenção dos EUA arriscaria um confronto maior.
  • O Desastre Humanitário: O Panamá de Noriega era corrupto, mas estável. A Venezuela é um colapso humanitário: hiperinflação, apagões, hospitais sem suprimentos e um êxodo de refugiados maior que o da Síria. Não se trata apenas de uma ditadura narco, mas de um Estado falido que sangra sobre seus vizinhos.
  • O Cálculo Militar: As forças de Noriega se renderam em dias. Já os militares venezuelanos são maiores, estão melhor equipados e totalmente entrelaçados à sobrevivência do regime. Qualquer invasão seria sangrenta, prolongada e politicamente explosiva.

A Aposta de Trump

Ao chamar Maduro de narcoterrorista, elevar a recompensa por sua captura para 50 milhões de dólares e posicionar navios de guerra em sua porta, Trump estava sinalizando força — não necessariamente preparando uma invasão. Era teatro geopolítico: projetar poder para o público interno, tranquilizar aliados na América Latina e manter Maduro na defensiva.

Mas havia outro cálculo. Após o fracassado encontro no Alasca com Vladimir Putin, em que saiu de mãos abanando, Trump passou a ver a Venezuela como palco de revanche — uma maneira de “acertar contas” atingindo um dos aliados centrais de Moscou no hemisfério ocidental. Nesse tabuleiro, Maduro não é apenas um ditador a ser deposto; é uma peça na disputa maior entre EUA e Rússia.

O problema? A própria base política de Trump. O movimento MAGA continua profundamente cético em relação a novas guerras no exterior. Muitos de seus apoiadores veem aventuras militares como traição ao lema “America First”. Uma invasão da Venezuela poderia afastar justamente os eleitores que garantem sua força política, mesmo que agradasse aos falcões de Washington.

O Fantasma do Panamá

No fim, Maduro não é Noriega. Pode até carregar o mesmo rótulo — ditador acusado de narcotráfico — mas a Venezuela é um monstro maior e mais complexo. O Panamá foi um golpe rápido. A Venezuela seria um atoleiro.

Ainda assim, a sombra de 1989 permanece. Para muitos latino-americanos, ver navios de guerra dos EUA diante da costa venezuelana soa como história se repetindo: mais uma lembrança da longa tradição de Washington em derrubar governos ao sul de sua fronteira. Para Trump, o manual Noriega era um espetáculo político tentador. Mas para a Venezuela, é um fantasma perigoso — capaz de assombrar toda a região se Washington confundir passado com presente.

E, justamente por causa das diferenças apontadas entre Panamá e Venezuela, caso os EUA realmente optem por intervir militarmente, é muito provável que não coloquem “botas no chão”, mas recorram apenas a ataques aéreos e mísseis de longo alcance. Uma operação cirúrgica, sem ocupação direta, seria a única forma de Washington tentar enfraquecer Maduro sem se afundar em um conflito aberto e custoso.

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