No dia 21 de Janeiro de 2022, o Ministro das Relações Internacionais do Irã Hossein Amir-Abdollahian fez uma visita a Pequim para discutir as implicações do acordo estratégico de cooperação sino-iraniana.
A relação entre a China e o Oriente Médio é um campo fértil para parcerias pelo interesse energético da China e relações comerciais em geral, como nos exemplos de parcerias via a Belt & Road Initiative (a “Nova Rota da Seda”), da qual o Irã faz parte.
Porém, essa parceria estratégica entre China e Irã causa diversas implicações no cenário geopolítico e, principalmente, com os interesses dos Estados Unidos e Israel.
As parcerias comerciais entre a China e o Irã
Em Março de 2021, a China e o Irã assinaram parceria com duração de 25 anos sobre trocas de tecnologia nucleares para fins pacíficos, energéticas e infraestrutura (além de militares). Com isso, bilhões de dólares vindos da China são investidos no desenvolvimento iraniano em troca de petróleo mais barato do que o preço de mercado.
A potência asiática e a Rússia, em Setembro de 2021, defenderam e aprovaram a inclusão do Irã na parceria dos países da Eurásia, Shanghai Cooperation Organisation (SCO).
“Os principais objetivos da SCO são os seguintes: reforçar a confiança mútua e a vizinhança entre os Estados-Membros; promover a sua cooperação efetiva na política, no comércio, na economia, na investigação, na tecnologia e na cultura, bem como na educação, na energia, nos transportes, no turismo, proteção do ambiente e outras áreas; envidar esforços conjuntos para manter e garantir a paz, a segurança e a estabilidade na região; e avançar para o estabelecimento de uma nova ordem política e econômica internacional democrática, justa e racional.”
Shanghai Cooperation Organisation (SCO)
O “olhar ao Oriente” do Irã trará não somente desenvolvimento ao seu país mas também um aliado contra as sanções dos Estados Unidos. A China, fazendo um acordo com o governo iraniano ganha mais uma aliança no Oriente Médio, fortalecendo-se; garante acordo com o país que possui 20% das reservas de petróleo, além de commodities; e ganha apoio contra as ações estadunidenses.
As parcerias militares entre a China e o Irã
O acordo de 25 anos entre os dois países possui cláusulas em segredo, porém foi divulgado que foram negociadas trocas de informação e inteligência, de corpo militar e desenvolvimento de armas.
Além disso, a inclusão do Irã no SCO aumentou sua relação com as outras potências, como a Rússia. Em 2019, a parceria entre os países agiram em conjunto no Oceano Índico e no Golfo de Omã e em 2021/22 Moscou, Pequim e o Irã planejam agir em união das forças militares no Golfo Pérsico.
O investimento chinês em desenvolvimento iraniano permite, também, um crescimento na produção das armas nucleares do Irã. Esse crescimento é o que causa mais insegurança política para os EUA e Israel, principalmente porque a China defende a diminuição das sanções americanas e uma reforma no Plano de Ação Conjunto Global (Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA).
O JCPOA é o famoso Acordo Nuclear Iraniano onde as maiores potências mundiais fecharam um acordo com o Irã para garantir que seu programa nuclear fosse pacífico e nunca usado para fins militares. Em troca do comprometimento Iraniano, foram tiradas várias sanções contra país.
Porém, o desenvolvimento nuclear pacífico do Irã traz vantagem à China, pois assim ela poderia investir no país sem desafiar as sanções impostas pelos Estados Unidos.
As implicações da parceria Sino-Iraniana para os EUA e o mundo
A parceria sino-iraniana não é só baseada em princípios econômicos e militares, mas também políticos.
Desde 2017 e o início do governo Trump, houve a aplicação de diversas sanções após o pedido de revisão do JCPOA por iniciativa iraniana. Com o investimento chinês, os efeitos dessas sanções são amenizados o que aumentará a uma “intransigência” sino-iraniana nas discussões sobre os potenciais nucleares e o JCPOA.
Porém, há uma ambiguidade chinesa de segurança, principalmente com suas relações com outros países do Golfo Arábico e Irã ao mesmo tempo, já que existem questões políticas internas que não agradam todas as partes. Com as sanções americanas, essa ambiguidade é ainda mais dificultosa.
Após o fim dos conflitos no Afeganistão e no Iraque, houve uma queda da presença dos EUA no Oriente Médio, o que permitiu esse crescimento da influência chinesa. Esse engrandecimento ameaça as próprias relações sociopolíticas estadunidenses, israelenses e da União Europeia com a região, principalmente na retirada pacífica das tropas americanas no Afeganistão.
O desenvolvimento de infraestrutura e nuclear iraniano não está dentro dos interesses estadunidenses, pelo contrário. Em 2019, o Irã anunciou que tinha começado a aumentar o enriquecimento de urânio para além do limite acordado no JCPOA de 3,67%.
O crescimento militar no Oriente Médio, ainda mais em parceria com a China, afeta em conflitos como o palestino-israelense que possui apoio dos EUA, além de ser uma vantagem na negociação de acordos de novas alianças. É um crescimento geopolítico que ameaça a posição ocupada atualmente pelos Estados Unidos.
“O comércio e investimento continuados da China com o Irã fornece um desenvolvimento econômico crítico para o regime iraniano, reduzindo a eficácia das sanções dos EUA. […] O investimento de longo prazo da China em integração regional e o interesse contínuo em acessar os recursos iranianos significa que a China se beneficia de um Irã economicamente e politicamente estável. Embora o comércio e o investimento da China com o regime contribuam para o bem-estar do cidadão iraniano médio, também encoraja o regime iraniano a continuar as suas atividades malignas face à pressão internacional. “
Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China
Como fica o Acordo Nuclear Iraniano (JCPOA)
O Plano de Ação Conjunto Global “O acordo nuclear Iraniano” foi feito em 2014 pelo Irã e os 5 países permanentes do conselho de segurança da ONU (China, França, Rússia, Reino Unido e EUA) junto com a União Europeia, o P5+1. O Plano conta com 109 páginas, sendo as principais pautas abordadas sobre as limitações da produção e pesquisa nuclear iraniana:
- Eliminar as reservas de urânio enriquecido;
- Eliminar 98% de suas reservas de urânio enriquecido;
- Reduzir em dois-terços o números de centrifugadores de gás num período máximo de treze anos;
- Nos quinze anos acordados, o Irã pode enriquecer o urânio somente 3.67%;
- O Irã não poderá construir usinas especializadas em energia nuclear durante os quinze anos;
- As atividades com urânio enriquecido serão limitadas a uma usina por dez anos;
- Outras usinas serão reformadas para evitar riscos de proliferação;
- A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) irá monitorar as atividades energéticas do país e terá acesso regular às usinas nucleares;
- O Irã deverá receber a suavização de sanções dos Estados Unidos, União Europeia e do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Porém, em 2018, o ex-presidente dos EUA Donald Trump saiu do JCPOA e aplicou as sanções contra o Irã.
O Acordo China-Irã discute o papel que a China deverá tomar na reforma do JCPOA, principalmente no quesito das discussões das sanções americanas, já que isso dificulta o estabelecimento de sua aliança comercial e política. O posicionamento chinês é firme no restabelecimento do acordo, porém que haja reformas para que os interesses iranianos sejam concretizados.
“A China apoia mais o JCPOA do que o posicionamento iraniano. Seu apoio vem menos de preocupação com as motivações nucleares do Irã (presumivelmente os líderes chineses entendem que o governo iraniano não é suicida), mas sim como uma forma de resolver as tensões entre o Irã e os Estados Unidos, a fim de remover as sanções contra o Irã. As sanções são o principal impedimento à implementação do Acordo Irã-China de 25 anos e à melhoria dos laços econômicos entre os dois países. Historicamente, é pouco provável que os investidores chineses estejam interessados no Irão, a menos que as sanções sejam levantadas.”
The Diplomat
O que é a “Área de Conflito Branca” Chinesa
O acordo de 25 anos entre a China e o Irã faz parte da “área de conflito branca” chinesa, de vantagens estratégicas militares de alianças. Isso significa que, mesmo se fosse uma simples aliança comercial do Belt & Road Initiative, a China ganha mais importância na área do Golfo e do Oriente Médio.
Ações como essas possibilitam maior lucro, mas mais importante: uma expansão de influência da China.
A partir do investimento nessas áreas, há a criação de uma aliança mas também de uma dependência que traz vantagens econômicas, políticas, sociais e militares para o lado chinês. É uma expansão de seu projeto ideológico e social que muda aos poucos as relações entre os países.
Essa “área de conflito branca” é a base do projeto de ganho de poder geopolítico, que aos passos pequenos e na formação de alianças com os país, existe a ambição de tomar as rédeas dos Estados Unidos sobre as relações internacionais.