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A Secessão do Sahel: Poderá um Novo País Surgir da Aliança Dissidente da África Ocidental no Sahel?

Aliança dos Estados do Sahel (AES)

Quando Níger, Burkina Faso e Mali anunciaram sua retirada da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), muitos observadores inicialmente trataram o movimento como mais um capítulo da longa tensão entre regimes militares e instituições regionais lideradas por governos civis. Mas o que se seguiu indica algo mais ambicioso — e potencialmente mais desestabilizador.

Os três países sem acesso ao mar no Sahel já não são apenas membros rebeldes à margem de um bloco regional. Eles estão ativamente construindo um projeto político alternativo: a Aliança dos Estados do Sahel (Alliance des États du Sahel – AES). E por trás da retórica de soberania e segurança surge uma ideia provocadora que, até pouco tempo atrás, soaria improvável: a de que um novo país — ou ao menos uma confederação com características estatais — possa emergir dessa aliança.


A ruptura com a CEDEAO: mais do que um gesto diplomático

A CEDEAO há muito se apresenta como uma das organizações regionais mais assertivas da África, especialmente em questões de governança democrática. Suas sanções rápidas contra juntas militares no Mali (2020 e 2021), em Burkina Faso (2022) e no Níger (2023) seguiram um roteiro conhecido: suspensão da membresia, punições econômicas e exigência de retorno rápido ao governo civil.

Mas, desta vez, a pressão produziu o efeito contrário.

Em vez de isolar as juntas até forçá-las à submissão, as sanções aprofundaram um sentimento compartilhado de agravo. Os líderes de Bamako, Ouagadougou e Niamey passaram a retratar a CEDEAO não como um árbitro neutro, mas como um instrumento de potências externas — em especial da França e, por extensão, do Ocidente. A ameaça de intervenção militar no Níger após o golpe de julho de 2023 foi um ponto de inflexão decisivo.

No início de 2024, os três países formalizaram sua saída da CEDEAO. Foi um movimento sem precedentes nos quase 50 anos de história da organização — e um sinal de ruptura não apenas institucional, mas também ideológica.


A Aliança dos Estados do Sahel (AES)

Lançada inicialmente como um pacto de defesa mútua, a AES rapidamente evoluiu para algo mais amplo. Declarações oficiais agora enfatizam:

O que começou como uma aliança de segurança passou a se assemelhar à estrutura inicial de uma união política.

Comandos militares conjuntos estão em discussão. Operações transfronteiriças contra grupos jihadistas já estão em andamento. Líderes falam abertamente em harmonizar posições de política externa, moedas e até regimes de circulação de pessoas. Simbolicamente, a aliança se apresenta como a verdadeira herdeira da soberania saheliana — desvinculada de arranjos pós-coloniais e de condicionalidades ocidentais.

Na prática, a AES não está apenas saindo da CEDEAO. Está tentando substituí-la — ao menos no Sahel.


A lógica de um novo Estado

A ideia de um “novo país” emergindo da AES ainda é especulativa, mas já não é marginal.

Confederações frequentemente nascem como respostas pragmáticas a ameaças compartilhadas. Com o tempo, a necessidade pode se transformar em identidade. As juntas do Sahel já compartilham narrativas muito semelhantes:

Sob essa ótica, um Estado saheliano confederado — ou uma união profundamente integrada com instituições comuns — poderia ser apresentado não como fragmentação, mas como a conclusão do processo de descolonização.

Há precedentes históricos. A efêmera Federação do Mali, no fim da década de 1950, tentou algo semelhante ao unir o Senegal e o Sudão Francês (atual Mali). Em outros contextos, os Emirados Árabes Unidos começaram como uma confederação frouxa de emirados antes de se tornarem um Estado reconhecido. Até mesmo a União Europeia, frequentemente citada como um modelo oposto, iniciou-se com a cooperação em carvão e aço antes de evoluir para uma entidade quase política.

A diferença é que a AES está sendo construída sob regimes militares, em meio a conflitos armados e em oposição direta a um poderoso bloco regional.


Segurança como cola — e como risco

O argumento mais forte a favor da integração da AES é a segurança. O Sahel tornou-se o epicentro de uma das insurgências jihadistas de crescimento mais rápido no mundo. Grupos afiliados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico operam livremente através das fronteiras, explorando Estados fracos e vastas áreas sem governança efetiva.

Para os líderes da AES, as fronteiras nacionais tornaram-se um obstáculo. Estruturas de comando coordenadas, inteligência compartilhada e uma doutrina militar unificada prometem uma eficiência que os Estados individuais não conseguiram alcançar.

Mas a segurança também é a maior aposta — e o maior risco — da aliança.

Apesar de anos de expansão do controle militar, a violência não diminuiu de forma significativa. As vítimas civis continuam a aumentar. Se a AES não conseguir demonstrar melhorias concretas — controle territorial, redução de ataques, restauração de serviços básicos — a legitimidade de uma união política mais profunda será frágil.

Um novo Estado nascido da insegurança corre o risco de ser definido por ela.


Rússia, Ocidente e um Sahel multipolar

Nenhuma análise da AES é completa sem considerar a geopolítica. À medida que as relações com França e Estados Unidos se deterioraram, Mali, Burkina Faso e Níger pivotaram decisivamente em direção à Rússia. Forças ligadas ao grupo Wagner (posteriormente reorganizadas sob outras denominações) substituíram tropas francesas, enquanto Moscou oferece apoio militar e cobertura diplomática sem condicionalidades democráticas.

A AES encaixa-se, assim, em um padrão global mais amplo: a contestação regional em um mundo multipolar.

Para a Rússia, um bloco saheliano unificado e hostil à influência ocidental tem valor estratégico. Para a China, estabilidade — independentemente do tipo de regime — importa mais do que normas de governança. Para o Ocidente, a AES representa um precedente inquietante: uma ordem regional que rejeita abertamente mecanismos de imposição democrática.

Caso a AES se formalize como uma nova entidade política, o reconhecimento internacional provavelmente será desigual. Alguns países podem se engajar discretamente. Outros se recusarão abertamente. O resultado pode ser uma entidade em zona cinzenta — funcionalmente real, mas diplomaticamente contestada.


O que isso significa para a África

O surgimento da AES desafia um pressuposto central da política africana pós-Guerra Fria: o de que a integração regional avançaria de forma contínua em direção a blocos maiores e baseados em regras. Em vez disso, a África Ocidental enfrenta agora uma fragmentação ao longo de linhas ideológicas — entre regimes militares que priorizam a soberania e instituições que buscam impor padrões democráticos.

Se um novo Estado ou confederação saheliana emergir, poderá inspirar imitações em outras regiões. Áreas insatisfeitas com seus blocos existentes podem decidir que sair é preferível a reformar. A União Africana, já cautelosa, pode se ver diante de um continente com ordens regionais paralelas.


Um país em formação — ou apenas um ato de desafio?

Se a AES se tornará um novo país, uma confederação duradoura ou apenas uma aliança circunstancial ainda é incerto. O que está claro é que Níger, Burkina Faso e Mali já não agem como regimes militares isolados. Eles articulam uma visão alternativa de Estado — enraizada em segurança, soberania e resistência à pressão externa.

No Sahel, fronteiras traçadas em capitais europeias há um século estão sendo questionadas não por separatistas, mas pelos próprios Estados.

E talvez esse seja o desenvolvimento mais radical de todos.

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